terça-feira, 2 de agosto de 2016

"Hay que estar dispuesto a dejarse llevar por el mundo abstracto. Hay que querer perderse en él. Si no, se tendrá la sensación de frustración."                                                            
Esta frase de David Lynch, que também uso como título para a nossa conversa, consegue sintetizar o mundo interior encontrado pela protagonista - Lotje  - do documentário "My beautiful broken brain" após sofrer um AVE (Acidente Vascular Encefálico, ou o que comumente chamamos de "derrame cerebral") em uma localização privilegiada do cérebro que os médicos costumam denominar de "lado dominante" e que na maioria das pessoas está no hemisfério cerebral esquerdo; hemorragia esta que, para má sorte da nossa amiga, ocorreu nas adjacências de sua área cerebral responsável pela fala, deixando-a com um dos vários tipos que existem de afasia (dificuldades na linguagem), além de outras sequelas neurológicas que tornaram a sua maneira de enxergar o mundo completamente nova.
Diante disso, já consegue-se perceber que um dos pontos chaves da narrativa é a adaptação de Lotje a este universo abstrato a que foi arremessada após o AVC tão inesperado; e com o objetivo de tentar envolver o espectador neste mundo, os produtores utilizaram-se dos mais diversos recursos: manchas na tela no lado do olho em que Lotje referia ter "alucinações visuais" quando a câmera estava disposta de forma subjetiva, enquadramentos que muitas das vezes fazem-nos lembrar de filmes como a Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal e até mesmo o silêncio dos ambientes, que parecem deixar as vozes mais expressivas, altas e verdadeiras.
Contudo, mudar perspectivas por tanto tempo vividas e se adaptar a novidades impostas de forma tão abrupta, não é tarefa fácil. Por isso Lotje passa por vários "estágios da doença" até, finalmente, conseguir aceitar a sua nova condição.
E, embora o cerne do longa seja a doença, o que mais está sendo valorizado nele é o ser humano e a sua individualidade diante das adversidades. E é exatamente pela humanidade que ele traz que merece ser, não só assistido, mas de alguma maneira vivido, servindo de lição e reflexão, que podem sem muita dificuldade serem alcançadas ao final do filme ao som da música francesa mais encantadora e dramática que já existiu: ne me quitte pas.